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Notícia

O nexo causal nas doenças ocupacionais

Critérios de reconhecimento e desafios probatórios na responsabilização do empregador

O nexo causal e o adoecimento psicossocial no trabalho

A lei 8.213/91, em seu art. 20, equipara as doenças ocupacionais ao acidente de trabalho. A previsão normativa, contudo, é apenas o ponto de partida. O reconhecimento judicial do nexo causal entre o trabalho e o adoecimento exige a produção de prova que, na prática forense, se revela particularmente difícil quando a patologia em discussão é de natureza psicossocial. O burnout, a depressão e os transtornos de ansiedade não deixam marcas no corpo; sua comprovação depende de laudos periciais, relatos circunstanciados e indícios que só ganham sentido quando analisados em conjunto.

O nexo causal, compreendido como o elo entre a conduta ou omissão do empregador e o dano sofrido pelo empregado, pode se configurar de formas distintas no âmbito das doenças ocupacionais. A hipótese mais intuitiva é a do nexo causal direto, em que a patologia decorre exclusivamente das condições de trabalho. Esse cenário, porém, é raro quando se trata de adoecimento psíquico, cuja etiologia costuma envolver múltiplos fatores. Na prática, a configuração mais frequente é a de concausa, nos termos do art. 21, I, da lei 8.213/91, que não exige que o trabalho seja a causa única do adoecimento, bastando que tenha contribuído de forma relevante para o surgimento ou agravamento do quadro clínico.

Merece destaque o NTEP - Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário, instituído pelo decreto 6.042/07. Trata-se de mecanismo que cruza dados estatísticos de incidência de determinadas patologias em setores econômicos específicos e, quando aplicável, estabelece presunção relativa de nexo entre a doença e a atividade laboral. O efeito processual é significativo: inverte-se o ônus da prova, cabendo ao empregador demonstrar a ausência de relação entre a patologia e o trabalho. A importância dessa inversão será retomada adiante, quando tratarmos dos desafios probatórios.

A invisibilidade do sofrimento psíquico como obstáculo à prova

A inclusão do burnout na CID-11, sob o código QD85, classificado pela OMS como fenômeno ocupacional, fortaleceu a tese de que o esgotamento profissional guarda relação direta com o ambiente de trabalho. A depressão (CID-10: F32-F33) segue outro caminho: embora reconhecidamente multifatorial, os tribunais a têm aceito como doença ocupacional sempre que as condições laborais participaram de forma relevante no desencadeamento ou agravamento do quadro.

O problema é que essas patologias não se revelam num exame de imagem. Uma fratura pode ser fotografada; uma hérnia de disco aparece na ressonância. O sofrimento psíquico, não. Sua comprovação repousa em laudos periciais psicológicos e psiquiátricos, no relato do trabalhador e, com frequência, em indícios que, isolados, dizem pouco, mas que, articulados, revelam um padrão nocivo. Isso exige do reclamante um trabalho de instrução cuidadoso: é preciso apontar, com razoável concretude, quais condições de trabalho contribuíram para o adoecimento.

Jornadas sistematicamente excessivas, cobranças por metas inatingíveis, práticas reiteradas de assédio moral e isolamento funcional são alegações recorrentes, mas precisam vir acompanhadas de elementos concretos. Laudos médicos com histórico temporal, atestados, comunicações internas, depoimentos testemunhais e registros de e-mail constituem peças relevantes nessa construção probatória. A ausência de documentação contemporânea à época do adoecimento fragiliza consideravelmente a pretensão.

Critérios de reconhecimento na jurisprudência

A análise das decisões dos TRT e do TST permite identificar padrões recorrentes no exame do nexo causal em doenças psicossociais.

A contemporaneidade entre a exposição ao risco e o surgimento dos sintomas é o critério mais presente. Os tribunais buscam uma correlação temporal razoável entre o período de trabalho em condições adversas e o início da manifestação patológica. Um quadro depressivo diagnosticado anos após o desligamento, sem acompanhamento médico intermediário que documente a evolução clínica, dificilmente terá o nexo reconhecido.

A adequação da causa ao efeito também é avaliada. O magistrado verifica se a exposição alegada é reconhecida pela literatura médica como capaz de produzir a doença constatada. Assédio moral reiterado, por exemplo, goza de aceitação consolidada como fator idôneo a desencadear quadros depressivos e ansiosos. Já a mera insatisfação com o conteúdo das tarefas ou com o estilo de gestão do superior hierárquico não costuma ser suficiente.

Outro aspecto relevante diz respeito à eventual preponderância de causas extralaborais. O reconhecimento da concausa não exige que o trabalho seja a causa exclusiva do adoecimento. Mas os julgadores avaliam se fatores como histórico familiar de transtornos mentais, luto recente ou crises pessoais de grande intensidade exerceram influência tão determinante que a participação do trabalho se torna secundária. Quando isso ocorre, o nexo tende a ser afastado.

Mais recentemente, tem ganhado espaço a análise do meio ambiente de trabalho como um todo. Julgadores passaram a considerar indicadores objetivos da empresa: existência de programas de saúde mental, efetividade dos canais de denúncia, cumprimento das normas regulamentadoras, índices de rotatividade e de absentismo no setor do reclamante. Esses elementos, embora insuficientes quando analisados isoladamente, contribuem para a formação de um retrato mais fiel das condições às quais o trabalhador estava submetido.

Desafios probatórios e distribuição do ônus da prova

Nas doenças musculoesqueléticas, o laudo pericial costuma estabelecer com razoável segurança a relação entre o gesto repetitivo e a lesão. Nas doenças psicossociais, esse exercício é substancialmente mais complexo. O perito precisa reconstruir o contexto organizacional, avaliar o histórico pessoal do trabalhador e emitir juízo fundamentado sobre a contribuição relativa de cada fator, nem sempre dispondo das informações necessárias para tanto.

Os peritos judiciais costumam recorrer à classificação proposta por Schilling (1984), que organiza as doenças ocupacionais em três grupos conforme a intensidade da relação com o trabalho: no grupo I, o trabalho é causa necessária; no grupo II, atua como causa contributiva; no grupo III, funciona como provocador de uma condição latente. As doenças psicossociais se enquadram tipicamente nos grupos II e III, o que exige do perito uma fundamentação mais cuidadosa e menos categórica do que aquela normalmente encontrada em laudos de doenças do grupo I.

A distribuição do ônus da prova acrescenta outra camada de dificuldade. Pela regra geral do art. 818 da CLT, combinada com o art. 373 do CPC, cabe ao reclamante provar o fato constitutivo do seu direito. Quando o NTEP incide, como já mencionado, essa lógica se inverte. Nos demais casos, algumas decisões têm aplicado a teoria da carga dinâmica da prova, atribuindo o encargo à parte com melhores condições de produzi-la, que em geral é o empregador, detentor dos registros de jornada, dos laudos do PCMSO e dos documentos de gestão de pessoas.

Responsabilidade civil do empregador

O art. 927, parágrafo único, do CC prevê responsabilidade objetiva quando a atividade normalmente desenvolvida pelo empregador implicar risco aos direitos de outrem. A jurisprudência tem aplicado esse dispositivo a atividades com risco psicossocial reconhecidamente elevado, como o teleatendimento e o trabalho bancário sob regime de metas agressivas. Nesses casos, dispensa-se a prova de culpa, exigindo-se apenas a demonstração do dano e do nexo causal.

Com efeito, a tendência jurisprudencial caminha no sentido de ampliar o rol de atividades sujeitas à responsabilidade objetiva, sobretudo quando a empresa opera em setores nos quais o adoecimento mental dos empregados se revela frequente e estatisticamente significativo. A existência de altos índices de afastamento por transtornos mentais no setor em que o reclamante trabalhava, por exemplo, tem sido considerada indício relevante da inadequação das condições de trabalho oferecidas.

Prevenção e documentação como estratégias

Para o empregador, a prevenção é a estratégia mais eficiente. Programas de saúde mental, pesquisas de clima organizacional realizadas com regularidade, metas compatíveis com a capacidade humana e canais efetivos de escuta não são apenas boas práticas de gestão. São, também, elementos concretos de defesa processual, aptos a afastar ou atenuar a responsabilização em eventual demanda judicial.

Para o trabalhador, a orientação prática é documentar. Guardar atestados com indicação de datas e contexto. Preservar comunicações internas e registros eletrônicos. Manter acompanhamento médico contínuo, de preferência com profissional que registre o histórico clínico de forma circunstanciada. Tudo isso fortalece a instrução probatória, especialmente quando o caso não se beneficia da presunção do NTEP.

O amadurecimento da jurisprudência e os avanços nas classificações internacionais de doenças sinalizam que o impacto do trabalho sobre a saúde mental terá reconhecimento cada vez mais qualificado. Cabe aos profissionais do direito acompanhar essa evolução com rigor técnico e disposição para o diálogo interdisciplinar.